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sábado, 4 de julho de 2009

Deus no pote - A rotina de um viciado (Antônio Prata)

Eu era dono da minha vida. Fazia o que queria, ia para onde minhas pernas me levassem e ninguém mandava em mim, mas já faz 3 dias que isso acabou: troquei a liberdade por um pote de Nutela.
Como pode, aquele copo tão pequenininho, com a pasta de chocolate e avelã, ter me dominado tão completamente, em apenas 72 horas? Não sei, nem quero saber. Talvez, depois de comer essa banana - com Nutela, claro - eu pense nisso.
Agora foi banana. Pela manhã, torrada. Ontem, até barra de cereal eu meti no pote. Ainda não enfiei o dedo porque tenho medo de arrancá-lo fora numa única dentada.
Trato esse doce com o mesmo respeito que os enólogos têm pelo vinho. Pratico até meus rituais. Primeiro, abro o pote e cheiro. Deixo as partículas nutélicas se espalharem pelo ar e entrarem fundo em minhas narinas, como um Vic-Vaporub gastronômico. Então, pego a faca e, com cuidado, vejo o creme se amontoando, que nem propraganda de bombom na hora em que despejam o chocolate. Lentamente, vou afastando a faca do pote. Como um requeijão mais fino, o creme vai esticando, esticando, até ficar um fio minúsculo. Nessa hora, coloco meu ouvido ali do lado. É que a minha devoção é tão grande que, acredito, se prestar bastante atenção, ainda consigo ouvir o som do fio de Nutela rompendo-se. (A audição é o único sentido que ainda não foi dominado por minha doce senhora.) Passo, finalmente, a pasta no pão, numa banana, panqueca ou qualque outro suporte. Gasto alguns segundos olhando a superfície marrom contra a luz. Às vezes brilha, como chocolate derretido, às vezes é opaco, como uma barra. Então eu como, feliz. Depois deprimo-me porque acabou e passo algumas horas sentado, esperando o tempo passar para que eu possa começar tudo de novo.
Gostaria de falar que só consumo Nutela socialmente, ou que experimentei numa festa e nem traguei, mas tenho o dever de dizer a verdade aqui, nesta coluna. Sou um viciado - e sou feliz.
Ser livre dá muito trabalho. A gente tem que escolher aonde ir, o que fazer, o que pensar e dizer, tem que preencher a vida e o tempo com uma série de acontecimentos que lhe confiram alguma graça e sentido. Eu estou livre disso tudo. A verdade é uma só. Vi a luz não no fundo do poço, mas no fundo do copo. E agora me dêem licença, que vou ali rezar mais um pouquinho.
Capricho, edição 1036. 20 de janeiro de 2008.

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