Jesus tomando sol (Antônio Prata)
Você já reparou que somente histórias envolvendo alguma forma de sofrimento nos livram de um compromisso? Se uma pessoa chega atrasada na escola, a um jantar ou ao trabalho, diz que foi o pneu que furou, uma carreta virada na avenida, o velório da tia-avó ou a gripe do periquito que a atrapalhou. Sempre problemas. Imagine só se uma amiga sua chega no meio da aula e explicasse, feliz da vida, para a professora: “No caminho eu encontrei um cara lindo, a gente começou a conversar e, quando eu vi, já tinham se passado quarenta minutos… Posso entrar?”
Não ia dar certo. Já se ela aparecesse dizendo: “Putz, professora, o pneu do ônibus furou, o motorista foi trocar e teve um torcicolo, não conseguia se mexer. Nesse momento os assaltantes chegaram e me fizeram de refém. Minha mãe foi tirar dinheiro pra pagar o resgate e a máquina engoliu o cartão. Tivemos que pedir dinheiro emprestado pra minha avó e por isso cheguei agora”. Aí, sim, ela poderia assistir à aula.
Nessas e noutras situações tenho a impressão de que vemos o sofrimento e a dificuldade como mais nobres do que a felicidade e a facilidade. Já presenciei uma conversa em que as pessoas competiam para ver quem sofria mais. Uma disse que pegava dois ônibus até a faculdade. A outra falou: “Eu tenho que pegar dois ônibus e um trem”. Uma terceira sorriu, porque a parada estava ganha: “E eu tenho que pegar dois ônibus, um trem, ando dois quilômetros e tenho joanetes”. Eu, que moro ao lado, vou a pé e não tenho joanetes, fiquei quieto, envergonhado.
Não é à toa que o sofrimento é tão valorizado em nossa sociedade. Afinal de contas, há dois mil e quatro anos o nosso maior símbolo é um homem pregado na cruz. O filho de Deus, que morreu por nós. Por isso, dizem os católicos, temos que ter uma vida de sofrimento e humildemente aceitar as desgraças. Que horror! Imagine que bom se, em vez do crucifixo, cultuássemos um Jesus tomando banho de rio? Ou jogando bola? As pessoas levariam no pescoço pingentes do filho de Deus se preparando para um mergulho, tomando sol ou dando uma bicicleta! Melhor ainda, se nos altares Jesus estivesse dando um beijo apaixonado em Maria Madalena, sua namorada. Aí, ao passarmos por uma igreja ou um cemitério, não faríamos o sinal da cruz, mas daríamos um beijo. E aprenderíamos, desde criancinhas, que o filho de Deus veio ao mundo beijar o próximo e mostrar que o amor e a felicidade eram mais importantes que a dor, o sofrimento. Se fosse assim, quando a garota atrasada contasse a história do garoto lindo e da conversa, a professora daria um sorriso e a convidaria a entrar, sabendo que aquela aluna já havia aprendido o mais importante sobre a vida.
Fonte: Capricho nº 933 (8 de fevereiro de 2004)
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