dayeteu

sábado, 4 de julho de 2009

Jesus tomando sol (Antônio Prata)

Você já reparou que somente histórias envolvendo alguma forma de sofrimento nos livram de um compromisso? Se uma pessoa chega atrasada na escola, a um jantar ou ao trabalho, diz que foi o pneu que furou, uma carreta virada na avenida, o velório da tia-avó ou a gripe do periquito que a atrapalhou. Sempre problemas. Imagine só se uma amiga sua chega no meio da aula e explicasse, feliz da vida, para a professora: “No caminho eu encontrei um cara lindo, a gente começou a conversar e, quando eu vi, já tinham se passado quarenta minutos… Posso entrar?”
Não ia dar certo. Já se ela aparecesse dizendo: “Putz, professora, o pneu do ônibus furou, o motorista foi trocar e teve um torcicolo, não conseguia se mexer. Nesse momento os assaltantes chegaram e me fizeram de refém. Minha mãe foi tirar dinheiro pra pagar o resgate e a máquina engoliu o cartão. Tivemos que pedir dinheiro emprestado pra minha avó e por isso cheguei agora”. Aí, sim, ela poderia assistir à aula.
Nessas e noutras situações tenho a impressão de que vemos o sofrimento e a dificuldade como mais nobres do que a felicidade e a facilidade. Já presenciei uma conversa em que as pessoas competiam para ver quem sofria mais. Uma disse que pegava dois ônibus até a faculdade. A outra falou: “Eu tenho que pegar dois ônibus e um trem”. Uma terceira sorriu, porque a parada estava ganha: “E eu tenho que pegar dois ônibus, um trem, ando dois quilômetros e tenho joanetes”. Eu, que moro ao lado, vou a pé e não tenho joanetes, fiquei quieto, envergonhado.

Não é à toa que o sofrimento é tão valorizado em nossa sociedade. Afinal de contas, há dois mil e quatro anos o nosso maior símbolo é um homem pregado na cruz. O filho de Deus, que morreu por nós. Por isso, dizem os católicos, temos que ter uma vida de sofrimento e humildemente aceitar as desgraças. Que horror! Imagine que bom se, em vez do crucifixo, cultuássemos um Jesus tomando banho de rio? Ou jogando bola? As pessoas levariam no pescoço pingentes do filho de Deus se preparando para um mergulho, tomando sol ou dando uma bicicleta! Melhor ainda, se nos altares Jesus estivesse dando um beijo apaixonado em Maria Madalena, sua namorada. Aí, ao passarmos por uma igreja ou um cemitério, não faríamos o sinal da cruz, mas daríamos um beijo. E aprenderíamos, desde criancinhas, que o filho de Deus veio ao mundo beijar o próximo e mostrar que o amor e a felicidade eram mais importantes que a dor, o sofrimento. Se fosse assim, quando a garota atrasada contasse a história do garoto lindo e da conversa, a professora daria um sorriso e a convidaria a entrar, sabendo que aquela aluna já havia aprendido o mais importante sobre a vida.
Fonte: Capricho nº 933 (8 de fevereiro de 2004)

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Imaturidade Precoce (Antônio Prata)

Imaturidade Precoce ...Se eu pudesse escolher um único momento para voltar no tempo e corrigir um erro,iria para aquela tarde de 1987. Eu tinha 9 anos e estava na quarta série. Fazia um trabalho em grupo,com meus amigos, as mesas encostadas umas nas outras. Só homens.(Imagina só se iríamos nos juntar ás - arght!- Meninas) Então chegou a Madalena e jogou na minha mesa um papel minuciosamente dobrado. Na face virada para cima ,lia-se : Para o Antonio." Nem precisava virar o bilhete para saber quem era a remetente. Eu era apaixonado pela Luana desde o primeiro dia de aula da primeira série. era daquelas paixões de criança, terríveis, porque fortíssimas e ao mesmo tempo insatisfazíveis. O que eu ia fazer? beijar na boca , com 6 anos? Sentia vontade de ficar perto, muito perto, e ao mesmo tempo uma vergonha, como se aquilo fosse errado , sei lá por que.Na segunda série,Luana me escreveu uma cartinha.Desenhou um avião jogando flores sobre um campo, onde uma pessoa corria. Lá em cima , estava escrito :"Antonio,você é muito legal".Foi a primeira carta de amor que eu recebi.Talvez a mais bonita. Dois anos se passaram e , até onde eu lembro não aconteceu nada (e também,o que poderia acontecer?)Até que a Madalena jogou aquele bilhete na minha mesa e minhas pernas tremeram. Tremeram por que eu sabia que era uma carta do meu amor. Tremeram por que eu tinha vergonha de amar uma menina. E , diante do pavor de que meus amigos descobrissem que eu tinha algum tipo de relacionamento com as inimigas do sexo oposto, e que começassem a bater na mesa e cantar "tá namorando! tá namorando!",peguei o bilhete o mais rápido que pude e _ai, como me arrependo !joguei pela janela . Claro que meus colegas perceberam e foram correndo para a janela. A cartinha azar dos azares, tinha caído numa sacada,aberta. De um lado lia-se "de Luana" e, do outro "para Antonio".A classe inteira ficou sabendo que :A)A Luana gostava de mim.b)Eu era uma besta quadrada e havia jogado fora , sem ler,a carta que ela havia me escrito.Olhei para o outro lado da classe .
Luana estava chorando. Madalena a consolava e olhava para mim, com ódio nos olhos. Eu tinha 9 anos e havia partido o coração do meu amor( eu já era imaturo naquela época ).Se pudesse voltar no tempo...
ps: Luana por favor leia esse texto !!!

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Deus no pote - A rotina de um viciado (Antônio Prata)

Eu era dono da minha vida. Fazia o que queria, ia para onde minhas pernas me levassem e ninguém mandava em mim, mas já faz 3 dias que isso acabou: troquei a liberdade por um pote de Nutela.
Como pode, aquele copo tão pequenininho, com a pasta de chocolate e avelã, ter me dominado tão completamente, em apenas 72 horas? Não sei, nem quero saber. Talvez, depois de comer essa banana - com Nutela, claro - eu pense nisso.
Agora foi banana. Pela manhã, torrada. Ontem, até barra de cereal eu meti no pote. Ainda não enfiei o dedo porque tenho medo de arrancá-lo fora numa única dentada.
Trato esse doce com o mesmo respeito que os enólogos têm pelo vinho. Pratico até meus rituais. Primeiro, abro o pote e cheiro. Deixo as partículas nutélicas se espalharem pelo ar e entrarem fundo em minhas narinas, como um Vic-Vaporub gastronômico. Então, pego a faca e, com cuidado, vejo o creme se amontoando, que nem propraganda de bombom na hora em que despejam o chocolate. Lentamente, vou afastando a faca do pote. Como um requeijão mais fino, o creme vai esticando, esticando, até ficar um fio minúsculo. Nessa hora, coloco meu ouvido ali do lado. É que a minha devoção é tão grande que, acredito, se prestar bastante atenção, ainda consigo ouvir o som do fio de Nutela rompendo-se. (A audição é o único sentido que ainda não foi dominado por minha doce senhora.) Passo, finalmente, a pasta no pão, numa banana, panqueca ou qualque outro suporte. Gasto alguns segundos olhando a superfície marrom contra a luz. Às vezes brilha, como chocolate derretido, às vezes é opaco, como uma barra. Então eu como, feliz. Depois deprimo-me porque acabou e passo algumas horas sentado, esperando o tempo passar para que eu possa começar tudo de novo.
Gostaria de falar que só consumo Nutela socialmente, ou que experimentei numa festa e nem traguei, mas tenho o dever de dizer a verdade aqui, nesta coluna. Sou um viciado - e sou feliz.
Ser livre dá muito trabalho. A gente tem que escolher aonde ir, o que fazer, o que pensar e dizer, tem que preencher a vida e o tempo com uma série de acontecimentos que lhe confiram alguma graça e sentido. Eu estou livre disso tudo. A verdade é uma só. Vi a luz não no fundo do poço, mas no fundo do copo. E agora me dêem licença, que vou ali rezar mais um pouquinho.
Capricho, edição 1036. 20 de janeiro de 2008.

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Deus no pote - A rotina de um viciado (Antônio Prata)

Eu era dono da minha vida. Fazia o que queria, ia para onde minhas pernas me levassem e ninguém mandava em mim, mas já faz 3 dias que isso acabou: troquei a liberdade por um pote de Nutela.
Como pode, aquele copo tão pequenininho, com a pasta de chocolate e avelã, ter me dominado tão completamente, em apenas 72 horas? Não sei, nem quero saber. Talvez, depois de comer essa banana - com Nutela, claro - eu pense nisso.
Agora foi banana. Pela manhã, torrada. Ontem, até barra de cereal eu meti no pote. Ainda não enfiei o dedo porque tenho medo de arrancá-lo fora numa única dentada.
Trato esse doce com o mesmo respeito que os enólogos têm pelo vinho. Pratico até meus rituais. Primeiro, abro o pote e cheiro. Deixo as partículas nutélicas se espalharem pelo ar e entrarem fundo em minhas narinas, como um Vic-Vaporub gastronômico. Então, pego a faca e, com cuidado, vejo o creme se amontoando, que nem propraganda de bombom na hora em que despejam o chocolate. Lentamente, vou afastando a faca do pote. Como um requeijão mais fino, o creme vai esticando, esticando, até ficar um fio minúsculo. Nessa hora, coloco meu ouvido ali do lado. É que a minha devoção é tão grande que, acredito, se prestar bastante atenção, ainda consigo ouvir o som do fio de Nutela rompendo-se. (A audição é o único sentido que ainda não foi dominado por minha doce senhora.) Passo, finalmente, a pasta no pão, numa banana, panqueca ou qualque outro suporte. Gasto alguns segundos olhando a superfície marrom contra a luz. Às vezes brilha, como chocolate derretido, às vezes é opaco, como uma barra. Então eu como, feliz. Depois deprimo-me porque acabou e passo algumas horas sentado, esperando o tempo passar para que eu possa começar tudo de novo.
Gostaria de falar que só consumo Nutela socialmente, ou que experimentei numa festa e nem traguei, mas tenho o dever de dizer a verdade aqui, nesta coluna. Sou um viciado - e sou feliz.
Ser livre dá muito trabalho. A gente tem que escolher aonde ir, o que fazer, o que pensar e dizer, tem que preencher a vida e o tempo com uma série de acontecimentos que lhe confiram alguma graça e sentido. Eu estou livre disso tudo. A verdade é uma só. Vi a luz não no fundo do poço, mas no fundo do copo. E agora me dêem licença, que vou ali rezar mais um pouquinho.
Capricho, edição 1036. 20 de janeiro de 2008.

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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

rsrs

lararaarraaa

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